O joio e o trigo

Fábio Carvalho Sotero, militante espiritualista na Filial Patrocínio, Belo Horizonte (MG).

O Racionalismo Cristão enfatiza em seus conceitos e princípios que o espírito vem a este planeta de escolaridade para evoluir. É uma afirmação simples que, para alguns, pode parecer simplista e até evasiva quando analisada pela superfície. Mas justamente por não possuir rebuscamentos desnecessários, ela tem em si a simplicidade do fato. Para o bom entendimento sobre a espiritualidade é necessário, portanto, estabelecer uma diferenciação entre o que é simples e o que é simplista. Existe, curiosamente, entre os dois conceitos aparente proximidade que exige perspicácia na análise da verdade. É preciso atentar para o significado de cada termo para a correta utilização do conceito de simplicidade.

O joio, o trigo e os frutos. Na trilha desse raciocínio e para desvendar as aparências, podemos nos valer do dito popular: é preciso separar o joio do trigo. Cabe aqui uma interpretação da parábola atribuída a Jesus. Existe grande semelhança entre o joio e o trigo. No início do crescimento, é difícil distingui-los apenas “de olho”. Por isso, recomenda-se ao dono da lavoura que deixe ambos crescerem juntos para evitar arrancar o trigo por engano.

A preservação do trigo depende, portanto, da manutenção do crescimento do joio — realidade bastante instigante. Mas à medida que vão crescendo a diferença entre ambos vai tornando-se clara. Quando amadurece, o trigo produz espigas cheias de grãos — seus frutos —, tendendo a se curvar pelo peso. O joio, por sua vez, não produz grãos úteis da mesma forma. A explicação da parábola remete justamente à diferença entre aquilo que está externo e aparente e aquilo que está na essência: o joio parece trigo, mas não produz espigas, não dá frutos. Tem aparência de trigo, mas não é. Ao fim do processo, são os frutos — as espigas — que revelam quem é quem, a despeito das aparências. Aqui podemos fazer um paralelo com outra parábola também atribuída a Jesus: “Pelos frutos os conhecereis”. Trata-se de um ensinamento que permite distinguir o falso do verdadeiro. Assim como as árvores são conhecidas pelos seus frutos, as pessoas são conhecidas por aquilo que suas vidas produzem. Aparências podem enganar por algum tempo. Os frutos, entretanto, revelam a verdadeira natureza: atitudes, decisões, caráter, relacionamentos, influências sobre outras pessoas e consequências das próprias ações. Ou seja, é no resultado concreto da existência que a aparência começa a perder força e o trigo começa, naturalmente, a se distanciar do joio.

Aqueles que têm perspicácia de analisar ideias, argumentos e valores a partir do que se apresenta de forma simples compreendem que um argumento não se torna necessariamente verdadeiro só pelo uso de palavras difíceis, assim como uma ideia não é falsa ou superficial por ser apresentada com simplicidade. O critério não está na forma, mas no conteúdo. Ser simples na forma, portanto, não significa ser superficial. A rigor, uma teoria simples é aquela que é objetiva, direta, sem o uso desnecessário de palavras rebuscadas, como tantas vezes se vê em elaborações teóricas ou conceituais. Uma ideia pode ter profundidade e, ainda assim, ser apresentada com simplicidade.

Ser simplista, por outro lado, significa simplificar exageradamente. É fazer propostas ou análises sobre temas complexos de forma reducionista, transformando aquilo que exige inteligência em algo sem importância, sem nuances e sem considerar todas as variáveis envolvidas. É reducionista e simplista qualquer análise que desconsidere as três principais leis universais envolvidas no processo evolutivo: a lei da atração, a lei de causa e efeito e a lei das múltiplas existências. A profundidade de análise que o tema exige não permite deixar de lado as leis evolutivas e suas nuances. Assim, uma abordagem que não as considere é, por consequência, simplista.

A simplicidade como atributo. A partir da premissa sobre o que é essência e o que é aparência fica evidente, à luz dos ensinamentos do Racionalismo Cristão, que a simplicidade é um dos grandes atributos dos espíritos que já alcançaram alto grau de evolução.

Quanto mais evoluído é o espírito, mais simples o ser humano se apresenta nas relações interpessoais. Podemos tomar Luiz de Mattos como exemplo desse atributo. Sua simplicidade está registrada na literatura racionalista cristã na parte em que se relata um episódio ocorrido com ele, já renomado negociante de café, quando um fazendeiro que lhe havia confiado a negociação de grande quantidade do produto veio até à casa comissária – onde se faziam os negócios de compra e venda – para conhecer o homem que estava negociando sua riqueza. Ao se aproximar do jovem Luiz sentado na lida do dia, pergunta-lhe se o patrão estava presente, dizendo que queria conhecê-lo pessoalmente. Luiz de Mattos responde que sim e que iria informar a sua chegada. Vai ao fundo do estabelecimento se trocar para se apresentar adequadamente ao fazendeiro e, quando volta, o homem se surpreende ao ver o mesmo jovem que estava há pouco ensacando o café junto aos outros trabalhadores vir recepcioná-lo. Travaram breve diálogo no qual o fazendeiro, ainda surpreso, notou que o jovem era perfeitamente capaz de negociar seu “ouro negro”, apesar da pouca idade. Luiz de Mattos, em seu natural simplicidade, demonstrou que ser simples é ser modesto, é não dar valor ao luxo ou a aparências, é ser descomplicado, de fácil relacionamento, confiável, fácil de entender, franco, transparente, honesto e verdadeiro. Ele já era conceituado negociante, mas isso não o impedia de ensacar o café – tarefa simples – junto com os outros trabalhadores.

Quando o excesso se confunde com o essencial. Essa distinção entre o joio e o trigo não se limita aos conceitos estritamente ligados à espiritualidade. Na vida comum dos relacionamentos humanos e, por exemplo, nos estudos acadêmicos e em diversas elaborações teóricas, observam-se afirmações exageradamente rebuscadas, algumas delas deliberadamente formuladas de maneira difícil de compreender, com o propósito de imprimir ares de privilegiada sabedoria e erudição, mas que mal conseguem ocultar a vaidade do autor em parecer e se mostrar conhecedor do assunto.

Esses exemplos evidenciam que a essência não está na complexidade das palavras, mas na utilização da linguagem como instrumento capaz de desvendar a substância além das aparências. É comum também, no campo jurídico — ressalvada a terminologia própria da área —, o emprego dessa mesma “estratégia”, fazendo com que o joio se apresente com aparência de trigo. Significa dizer que aquilo que aparenta profundidade pode ser apenas ornamentação; o que parece conhecimento pode não passar de repetição; e o que parece difícil pode ser apenas rebuscado adorno desnecessário, desprovido de conteúdo verdadeiramente aproveitável.

Outro exemplo sobre a simplicidade está registrado na controvérsia havida entre Luiz de Mattos e renomado médico brasileiro no início do século XX, cujas Notas publicadas em A Razão ensejaram posterior publicação de um livro. Nas Notas, ambos defendiam seus pontos de vista em franco debate. O renomado médico apresentava argumentos aparentemente lógicos, mas repetidos e baseados em “conceitos científicos”, replicando o que existia na Europa à época, com ares de modernidade. Luiz de Mattos, por sua vez, fundamentava-se na simplicidade dos estudos apresentados de forma franca, direta e objetiva por estudiosos brasileiros, sem ornamentos teóricos e exageros estilísticos. O que se constata, além da riqueza do conteúdo, é que a simplicidade permite distinguir a substância da aparência, o falso do verdadeiro. Por fim, podemos afirmar que separar o joio do trigo deixa de ser apenas uma metáfora e passa a ser um método de discernimento. Separar o joio do trigo é aprender a distinguir o simples do simplista, a aparência da essência, profundidade da ornamentação, conhecimento da mera repetição, a modéstia da vaidade. É, enfim, distinguir aquilo que é daquilo que apenas procura parecer.