Proclama o presidente Donald Trump: a nova estratégia contraterrorismo “é um retorno ao senso comum e à paz pela força”. Em novembro 2025, a Rand Corporation concluiu a atualização – pior a emenda que o soneto – da doutrina de segurança nacional dos Estados Unidos, no que se refere ao projeto ‘Nivelando as Atividades do Departamento de Assistência à Força de Segurança de Guerra na América Latina’. De fato, um informe ao Departamento de Guerra sobre os meios potenciais de conter o que considera ameaças ao país, e projetar maior influência. Pesquisa e análise foram financiadas inclusive pelo Escritório da Secretaria de Guerra e agências de inteligência. [www.rand.org/nsrd/isdp].
Pouca novidade. Passa a 1ª. Brigada de Assistência às Forças de Segurança a chamar-se Grupo Sul de Cooperação à Segurança do Exército. A lembrar que a Estratégia de Segurança Nacional 2025 eleva a importância da América Latina ao nível de região de “preocupação de segurança”, a atualização permitirá bem avaliar o comportamento das parcerias regionais.
Os “múltiplos ambientes estratégicos” merecerão tratamento de concorrência, guerra irregular e crise. Ao Grupo Sul reservam-se atividades anticorrupção, tráfico de drogas e, conforme o caso, deter o avanço da “aguda competição” da China, Rússia e Irã. Haverá um aumento das atividades de “assistência”: organizar, treinar, equipar, criar, assessorar forças parceiras. A dissuasão. “Por último, mas não menos importante, à luz das recentes mudanças na Agência para o Desenvolvimento Internacional e da presença diplomática mundial dos Estados Unidos, as formações de assistência à segurança têm o potencial para agir como diplomatas de fato, estabelecendo relações que, de outra maneira, os Estados Unidos talvez não tivessem”.
Despedidos pelo presidente Rafael Correa (2007-2017), os Estados Unidos retomaram progressivamente o pé no Equador, sob pretexto de lutar contra o crime organizado. Presença militar consolidada via ilhas Galápagos. Santuário natural, convertido em parque nacional em 1959, classificado patrimônio natural da humanidade pela Unesco, reserva marinha desde 1998, o arquipélago constitui um dos principais pontos de apoio dessa retomada. No cenário da cooperação com o Equador, ali agora estão drones. A crescente militarização regional prescinde de signo político, só importa o controle social dos países, alinhados ou forçados.
Na Bolívia, o movimento popular de inspiração chavista, pró-renúncia de um presidente, empenhado em reforma capitalista, leva também os militares às ruas para a repressão legalizada. Na Colômbia, o candidato da sucessão Petro, Iván Cepeda, faz denúncia formal à Procuradoria e ao Tribunal Penal Internacional sobre vínculos do opositor Abelardo De La Spriela com paramilitares. No Peru, eleições contestadas para além das expectativas. Já o Brasil enfrenta o cerco da política contraterrorista americana, até mesmo denúncia de vínculos de refinarias estatais com o Primeiro Comando da Capital. Para essa rotina exaustiva, migram ameaças, sanções e a militarização na Tríplice Fronteira, que o país reparte com Argentina e Paraguai, estes dois já de longe domados.
Para os Estados Unidos, a guerra contra o terrorismo e as drogas possibilita a intervenção de forças especiais. Assim, o Brasil pensa em aumentar, ou já aumentou, seu orçamento militar em alguns bilhões. As Forças Armadas, mesmo com a histórica cooperação com os Estados Unidos, propõem-se investir em equipamento de outros mercados, revendo a dependência. Paira no ar o uso mais seletivo de instrumentos de pressão. Fator de alívio nas tensões está em que as eleições americanas de meio mandato mantenham a Casa Branca voltada ao âmbito doméstico, “liberando” o Brasil para ocupar-se das suas.
Até lá, a Tríplice Fronteira pode estar em foco. Além dos efeitos nocivos ao meio ambiente, avulta a política de caça às bruxas. A zona, para o governo americano, serve ao terrorismo do Hezbolá. Inverdade. Desde 2010, os grupos de resistência violentos passaram a adotar táticas de guerrilha. E buscar financiamentos além. Como meta comum, minar, desalojar governos. A causa do Hezbolá estende-se ao Afeganistão, Iraque, Filipinas. Identifica-se com o Ruholá Khomeini, líder da revolução iraniana. Tal como o Hamas, em Gaza, tem apoio financeiro do Irã. Na luta pelo controle territorial (sul do Líbano, alvo de Israel), pode beneficiar-se da produção e comércio de drogas ali mesmo. Mas a busca de fundos chega à América do Sul, onde há libaneses, um ou outro com bens já congelados por Washington.
Anos a fio no rastro do descalabro belicista, David Barrio Rodríguez (em ‘Las guerras del siglo XXI’, coordenadora Ana Esther Ceceña) ressalta que os procedimentos de militarização não ocorrem isoladamente, são concatenados. Os “efeitos devastadores” do projeto político, econômico, cultural e social do neoliberalismo combinam-se, diz, com os cada vez mais frequentes desastres naturais, migração, crises de abastecimento e disputa entre as grandes potências. Esse o retrato da convergência. Haja vista a virulência no ‘Trópico do Caos’, a franja do planeta entre os trópicos de Câncer e Capricórnio, nos quais as populações, historicamente relacionadas com a agricultura e pesca, enfrentam a mudança climática em meio ao conflito social, com a violência armada.
As formas de guerra, hoje, envolvem diferentes tipos de atores armados, também em luta entre si. Há exércitos privados, empresas militares e de segurança privada, braços armados da economia/crime, paramilitares contra-insurgentes, organizações político-militares enfiadas em movimentos revolucionários. No vale-tudo, a pressão diplomática ganha espaço. Robert Muggah (Instituto Igarapé) aponta um caminho, quando diz que essa interconexão tende a passar ao nível de processo diplomático, porquanto absolutamente improfícuas as políticas de segurança.
País de uma das sociedades mais militarizadas do mudo, a Colômbia sofreu experimentos vários dessas formas de guerra irregular, sobretudo a partir do Plano Colômbia. O foco no narcoterrorismo aboliu o desenvolvimento econômico, a sociedade. “Os colombianos pediram pão e deram-lhes pedras”, sintetizou Robert White, ex-embaixador americano em El Salvador e Paraguai. E nem de longe a insurreição esquerdista das FARC, Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, ou das paramilitares AUC, Autodefesas Unidas da Colômbia, representou risco à segurança dos Estados Unidos.
“Enquanto a Casa Branca revigora a guerra às drogas de meio século, a América Latina cambaleia com o fracasso”. O Grupo de Crises (Crisis Group Latin America Report no. 108, 11 março 2025) é taxativo. Procede. A captura de chefões, erradicação de colheitas e apreensões agressivas geraram redes de tráfico mais resilientes e mais dispersas, geograficamente. América Latina, submundo de violência; sua fonte maior e a maior vítima. Europa e América do Norte com o tráfico em descontrole. Estados Unidos apostando num militarismo revitalizado. Faz-se urgente chegar às raízes e abrir uma perspectiva de negociações.” Tanto é injusto para a região quanto perigoso para o mundo intensificar uma guerra fracassada.

