Os mais, os menos, os mais ou menos e os nem mais nem menos

Dizia-se, na época das vovós, que um indivíduo era pobre, rico ou remediado; hoje se pode dizer dessas categorias: podre de rico e miserável. Claro, há sub-retrancas para esses títulos, mas quase todos muito próximos de A e de B, sendo os principais quase podre de rico e quase miserável. Como situar cada indivíduo em sua faixa socioeconômico-financeira, levando-se em conta a renda, o consumo, o modo de vida, a alimentação e o lazer? Há institutos, departamentos, órgãos governamentais e paralelos que cuidam desses estudos e estabelecem um sem-fim de faixas e camadas. É preciso saber para que time torcem, dos oficiais deve-se receber os resultados com o pé atrás, porque governo não gosta de confessar pelos seus órgãos sua incompetência ou descaso em promover o bem-estar da população ou se compraz em manipular índices para aparecer bem na fita. Vejamos, na análise simplista, mas objetiva e de fácil entendimento:

Podre de rico: o indivíduo que começou a vida a partir de uma herança (sabe-se lá como esse capital se formou), que jamais trabalhou e que vive de explorar a mais valia de semelhantes, acumulando cada vez mais bens materiais e moedas.

Quase podre de rico: é o seguidor do podre de rico nas práticas econômico-financeiras e igualmente beneficiário de herança, não tão poupuda, porém, quanto a do seu espelho.

Quase miserável: todos os demais indivíduos, excluídos os que só fazem uma refeição por dia quando alguém lhes fornece e dormem nas calçadas sob marquises ou na grama dos jardins públicos, sem colchão e sem coberta, acompanhados dos cães, amigos inseparáveis.

 Miserável: os que não alçaram à categoria de quase miserável e que podem ser classificados também como nem mais nem menos, ou melhor, nada.

Simples assim: nada de raízes quadradas, equações, trigonometria, logarítmos, teorias e tratados de matemáticos, sociólogos e antropólogos, parafernália que acoberta os doutores do coisa nenhuma, quando tratam da melhoria das condições de vida dos que nada têm e que poderiam beneficiar-se um pouco do que sobra dos que têm muito. No mais, será tão interessante saber se o indivíduo está do lado B, do lado A ou chafurda na profunda e quase intransponível vala escaldante e ácida que separa tais categorias? Apenas saber e divulgar conclusões que justificam os anos de universidade e os salários que auferem para aplicar conhecimentos por vezes inúteis e demostrar situações que dispensam tal trabalheira porque se escancaram à nossa passagem, à leitura de jornais e revistas, noticiários de TV?

Não se levam em conta, na elaboração deste artigo, as avaliações e a nomenclatura das categorias e subcategorias econômicas sustentadas pelos institutos especializados. São muito rebuscadas e dirigidas particularmente aos iniciados – leigos fora. Admite-se, porém, que entre os quase miseráveis e os quase podres de ricos há uma heterogênea mistura dos que querem fugir de uma faixa de classificação e alçar à outra, cada um com seu cacife – casa, apartamento, automóvel, motocicleta, scrooter, papéis de companhias registradas na Bolsa de Valores, diploma, família… E lutam para ao menos permanecer onde estão e, se possível, subir um pouquinho, nem que usem os miseráveis ou quase miseráveis como degrau. E os quase miseráveis pleiteando e lutando para chegar a quase mais levando como cacife sua força de trabalho, dignidade, seriedade e honestidade. Em tempo: esses itens não são considerados nas análises dos institutos de pesquisa a que nos referimos.

Não há que se condenar os super ricos, ainda que assim tenham nascido ou se tenham tornado à custa de práticas abomináveis de seus ancestrais. Cabe condenar, sim, os dirigentes deste país e seus asseclas parlamentares que não se empenham em aprovar leis que façam passar as banhas dos podres de ricos para a magreza dos miseráveis. Não é difícil, é só ter vontade. 

O que se vê é que as análises intelectualizadas elaboradas sob encomenda não levam em consideração se a qualidade de vida ou o padrão financeiro melhoram, permanecem estáveis ou pioram.

Em poucos dias entraremos numa nova legislatura com muitas caras novas no Congresso Nacional. Não gostaria esse exército de 594 chupa-sangues com os respectivos 594 gabinetes sanguessugas de passar à história como o grupo que fez alguma coisa séria em favor dos brasileiros das categorias menos e nem mais nem menos, ou seja, os quase miseráveis e os miseráveis? Qual! Antes da posse já devem estar pensando que esse assunto é para os vêm depois; há coisas imediatas a tratar, principalmente atendimento às bases, nomeações de lambe-botas que os acompanharam durante a campanha eleitoral, acomodar a professora do filhão, que se esforça para fazê-lo aprender o beabá e outras coisinhas assim da máxima importância.

O atendimento à massa que os elegeu por certo ficará para outra ocasião, e aquele apelo de taxação do imposto de renda sobre as grandes fortunas ou a cobrança das elevadas dívidas tributárias que rolam que esperem. Este é o presente; espera-se que não seja o futuro deste Brasil de rimas mil.