O que, por sua clareza, pode ser tomado como líquido e certo, nas altas rodas do poder não é bem assim: o certo submerge e surge uma situação antes inimaginável até pelos mais afamados e respeitados analistas políticos. Não é a primeira vez que isso acontece e agora estamos diante de mais uma sombria reviravolta. De repente, não mais que de repente, conforme o soneto do Poetinha, tudo mudou; o que era não é mais; o que ainda não era nasceu. Não se sabe, porém, se chegará à idade adulta. Ainda há cães farejadores nas trilhas rumo à imensidão onde, em consequência de hábeis arrumações, vagam e esvoaçam cédulas de altos valores, títulos bancários e contratos fraudulentos, resultado de pecado cuja origem, por determinação da mais alta corte do país, deixa de ser apurada; até a comissão parlamentar mista de inquérito criada para tratar disso foi dissolvida. Pode, porém, ser restabelecida e voltar tudo como antes no quartel de abrantes. Denso nevoeiro às costas, mais denso à frente! A plateia acompanha e torce: há os que (sem força) exigem clareza nas tais apurações, esperançosos que elas se restabeleçam, e os que preferem deixar como está porque a atual situação atende seus interesses. E a candidatura Lula ganha oxigênio.
Estava tudo encaminhando para uma disputa entre bolsonaristas e lulistas nas urnas, os primeiros confiantes na lábia do filho mais velho do clã, os outros acreditando que a idade fortalece e dá experiência. Havia dois complicadores que poderiam fazer a balança pender para a direita ou para a esquerda, e muitas articulações.
Eis que, por acordos, manobras e acertos de que até deus dúvida, um dos complicadores ruiu, o menino Lulinha se livrou de tudo que poderia incriminá-lo e fazer a balança pender contra o tranquilo passeio do paizão rumo ao terceiro mandado – quinto se forem considerados os quase dois de Dilma Rousseff, sua teleguiada. Lulinha tinha entrado na lista de envolvidos na monumental fraude do INSS, suspeito de ter recebido recursos do “Careca do INSS”, apontado como figura chave das tramoias.
A pedido da Polícia Federal o ministro André Mendonça, do STF, mandou quebrar os sigilos bancário, fiscal e telemático do filho do presidente, que não chegou a ser indiciado pela investigação das acusações lhe vinham sendo imputadas por haver tirado vantagem de verbas do INSS, denúncia que respingava na administração do pai. Parecia indefensável. A Polícia Federal e a CPMI do INSS investigavam essas denúncias.
A defesa de Lulinha alegava que as informações obtidas a partir da quebra dos sigilos não indicavam irregularidades e que a investigação era a concretização dos temores legítimos de que os prováveis resultados poderiam ser meros disfarces para manobras de interesse político.
Acabou tudo, a fraude não é mais apurada, Lulinha está limpo e puro como uma virgem do tempo em que elas abundavam – bons tempos! E boa solução para quem vivia em suspeição. A posição do pai nas pesquisas elevou-se.
Pais enfrentavam dificuldades de naturezas diversas e filhos se batiam para libertarem-se de acusações que lhes pesavam sobre a cabeça. Era assim: o presidente da República imprensado contra a parede por questões que lhe presenteou o filho mais velho, e o ex-presidente, ainda envolvido com a Justiça, via o primogênito sob ameaça de lhe fazer companhia na cadeia. Agora recebeu o beneplácito judicial e está em prisão domiciliar
No segundo caso, o garotão, senador da República, está em vias de ser impedido de concorrer à Presidência. Até grande número de seus pares o acusa por haver cumprido parte do mandato em passeios pelos Estados Unidos, recebendo os salários a que teria direito se estivesse trabalhando. No Brasil. Ele tem folha corrida desabonadora desde o episódio das rachadinhas, do qual se livrou com a intervenção do guarda-costas, mas o povo brasileiro não está convencido de sua inocência. Depois vieram as suspeitas de corrupção na compra de um imóvel. É acusado de agir fora do país com tentativas de levar os EUA a interferirem em julgamento de processo no STF; quebra de decoro e abuso das prerrogativas constitucionais ao promover ataques institucionais contra o STF; constranger o exercício da jurisdição constitucional e articular sanções internacionais contra autoridades brasileiras; quebra de decoro em razão da articulação da tarifa de 50% imposta pelo presidente dos EUA, Donald Trump, a produtos brasileiros vendidos ao país; e ameaçar, durante uma entrevista na qual afirmou que sem anistia para Jair Bolsonaro não haveria eleições em 2026, o processo eleitoral deste ano.
O senador é acusado de haver praticado atos de “incitação à ruptura do processo eleitoral, tentativa de submeter a jurisdição nacional ao escrutínio de potências estrangeiras, atos de hostilidade à ordem constitucional e ao Estado Democrático de Direito e uso do mandato como plataforma para desestabilização institucional”.
Vamos ao detalhamento. O presidente Lula foi condenado na Operação Lava jato e perdoado por um ministro do STF, anulação da condenação que lhe serviu de habeas corpus para concorrer às eleições que se aproximavam. Está agora às voltas com picuinhas. Desvencilha-se aqui, avança ali, adota medidas simpáticas e outras nem tanto, e vai seguindo o caminho que traçou, superando os pedregulhos e ameaçando os eleitores com nova candidatura para o cargo nas eleições de outubro próximo.
Já não se questionam a propriedade do triplex no Guarujá nem problemas menores. Conforme o jargão policial, o elemento está limpo. Pois não é que aparecem acusações ao filho. Mas o homem é esperto: anunciou aos quatro cantos que, se o primogênito tivesse culpa, teria que pagar. Faz lembrar uma historinha do tempo das vovós: danem-se os anéis, o necessário é preservar os dedos. Nesse caso, os anéis estavam muito encrencados e os dedos seriam alcançados.
Quanto ao ex-presidente, é sabido que cumpre pena por tentativa de golpe de estado, mas o pior é que trava uma luta de vida ou morte com os problemas de saúde, o mais recente uma broncopneumonia. Médicos que o assistem dizem que ele está mal. Com a saúde abalada e organismo enfraquecido, espera ver seu rebento ocupar a residência e os escritórios de onde saiu há quase quatro anos.
Deve lembrar-se das mordomias, da época em que sua palavra era tomada como lei, das facilidades, do tempo em que as portas se abriam para sua entrada e passagem, do tempo em que tomou para si valiosos presentes, joias, oferecidos por um governo estrangeiro ao funcionário que representava o país e que, portanto, não eram gentilezas pessoais. E ele sabia disso, mas se fez de inocente e cedeu à esposa o privilégio de ostentar publicamente as gemas, metais preciosos e brilhantes. Deve, agora, lamentar-se da dureza da tornozeleira, cujo valor se limita ao que espera parte da população brasileira.
Parece estar havendo nova reviravolta, esta com a participação dos espectadores e com verificação de conceituados institutos de pesquisa. Qualquer que seja o final desta novela, aqui estamos a admirá-lo e cultuá-lo, Brasil, de rimas mil.

