As contingências do mundo Terra

Em suas elocuções, Humberto Rodrigues, quando presidente físico do Racionalismo Cristão, usava comumente a alocução “são as contingências do mundo Terra”. Inequivocamente, depois que se tornou Presidente Astral do Racionalismo Cristão, em suas orientações como Espírito de luz da Plêiade do Astral Superior, continua usando a mesma expressão. Afinal, o que são “contingências do mundo Terra”? É disso que vamos tratar neste artigo. Precisamos, então, introduzir alguns conceitos de linguagem e de lógica aplicáveis, tais como, sentença (declarativa), proposição, tautologia e, naturalmente, contingência e seu adjetivo contingente.

Conceitos e significados. Sentenças declarativas são enunciados, em uma determinada língua, gramatical e lexicamente corretos, com um sentido. Proposições são o conteúdo expresso por sentenças declarativas. Contingências são proposições que podem ser verdadeiras ou falsas e indicam a possibilidade de que algo se realize ou não. A contingência implica uma ação ou situação imprevista, que não se consegue controlar nem prever. Então, por motivos de clareza, existe essa distinção entre sentenças e contingências. Tautologias são proposições sempre verdadeiras.

Conceituando um pouco mais, de acordo com os dicionários, contingência é uma eventualidade, uma dúvida, um acontecimento que tem como fundamento a incerteza do que pode ou não acontecer. Contingência é a característica daquilo que é contingente, ou seja, que acontece de forma circunstancial, sendo acidental, ocasional, eventual, duvidoso, imprevisto, inesperado, fortuito, aleatório, possível, mas incerto, que pode ocorrer, mas não necessariamente. Enfim, contingência é algo que pode vir a acontecer, mas que não pode ser controlado e não se pode afirmar se vai acontecer ou não. Ex.: Não podemos afirmar se vai chover amanhã, somente prever, podendo chover ou não.

Breve histórico. Pela primeira vez, já na antiga Grécia, Aristóteles introduziu esse conceito que aparece mais tarde com o nome de contingência nas obras de Weber, Parsons e Luhmann. Na filosofia ocidental, ele reaparece nas obras de muitos filósofos de todos os tempos, tais como: Husserl, Heidegger, Camus, Sartre e nas obras de grandes autores como Lyotard, Maffesoli, Bauman, Karl Marx e Gramsci, em que o conceito da contingência é usado no campo da teoria social, mostrando que o seu uso é necessariamente como é, mas também poderia ser diferente. Com a aceleração da tecnologia no mundo atual a inserção desse conceito vem ganhando relevância no campo da sociologia de nosso tempo. Eis aqui uma citação de Zygmunt Bauman (1925/2017): “A consciência da contingência não dá poder; sua aquisição não dá a seu possuidor uma vantagem sobre os protagonistas da luta de vontades e propósitos ou no jogo da astúcia e da sorte. Não leva à dominação nem a sustenta”.

As quatro proposições possíveis. De acordo com a conceituação estabelecida anteriormente, podemos contextualizar que são contingentes as proposições que não são necessariamente verdadeiras nem necessariamente falsas. Dentro dessas circunstâncias e premissas, construímos nossa realidade com quatro classes de proposições, a saber:

1. proposições  tautológicas, que são necessariamente verdadeiras em todas e quaisquer circunstâncias. São afirmações absolutas, como as da matemática e das ciências exatas (física, química etc.). 

2. proposições contraditórias que são necessariamente falsas, também chamadas de contradições em todas e quaisquer circunstâncias. São negações absolutas.

3. proposições contingentes, que não são necessariamente verdadeiras nem necessariamente falsas.

4. proposições possíveis, que são verdadeiras ou poderiam ter sido verdadeiras sob certas circunstâncias.

Todas as proposições necessariamente verdadeiras (tautologias) e todas as proposições contingentes também são proposições possíveis.

Diversidades de interpretações. Nós vivemos em um mundo dual, de muita diversidade, que se presta a muitas interpretações e possibilidades de ser e não ser, de existir e não existir, de ter e não ter e assim por diante. Essa constatação confirma a necessidade do livre-arbítrio, para fazermos escolhas entre duas ou mais opções. Vamos examinar como ocorre a contingência em algumas áreas do conhecimento humano.

Na Psicologia, a contingência se aplica a todos os atos do relacionamento humano e, por isso, se diz que ela é de natureza comportamental, fazendo parte da Análise Comportamental. Na prática, aqui a contingência consiste em uma relação de dependência entre certos eventos para analisar a influência que um determinado evento psicológico pode ter sobre outros eventos e vice versa. Existe também a tríplice contingência, que remete para uma relação de interdependência entre estímulos psicológicos. Ex.: Espera-se que quem fez um Cursinho para o Enem esteja preparado e vá conseguir bom resultado.

Na Lógica, a contingência é uma proposição que depende de circunstâncias para ser confirmada, pois não é sempre verdadeira e nem sempre falsa. É o que se espera de uma proposição contingente. Ela precisa realizar-se (ação) para definir se é verdadeira ou falsa.

Na Filosofia, a contingência significa algo que pode vir a acontecer de maneira eventual. Trata-se de um resultado que pode ser esperado, mas que não tem garantia que vai acontecer; o evento é aleatório, pode ou não acontecer.

 O filósofo alemão Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770/1831) nos transmitiu que entre a contingência e a necessidade, esta predomina, chegando a dizer que a necessidade é totalmente transparente a si mesma ou “a liberdade é a verdade da necessidade”. Mas outros filósofos modernos clamam que há limites para a liberdade tanto na Ética como no Direito. Se assim não fosse, isso geraria a anarquia e o colapso da sociedade, onde cada um escreveria seu roteiro. Em resumo, a contingência ficaria cada vez mais fraca e a necessidade dominaria a contingência.

Na Sociologia destaca-se NiklasLuhmann (1927/1998), um sociólogo alemão apontado como um dos principais autores das teorias sociais do século XX, que nos deixou uma obra com mais de 14 mil páginas. Segundo ele, “tudo é contingente que nem é necessário, nem impossível”. Ele trata da observação observada, que contempla a observação de primeira ordem ou direta e a observação de segunda ordem. Observa-se aqui “que o conceito de contingência é o resultado de uma dupla negação, primeiro da necessidade e, segundo, da impossibilidade”. Trata-se de uma lógica bipolar, baseada no “ser” ou no “não-ser”. Este conceito tem seus problemas: ele é responsável pela polarização política do mundo, com ideologias antagônicas, deixando-o conflituoso e caótico.

Conclusão. Diferentemente de transcendência ou metafísica, que trata das leis universais e espirituais, a imanência refere-se aos seres, eventos e coisas do mundo físico que afetam os nossos sentidos físicos, os sensores de nossa percepção da realidade. Vimos que o conceito de contingência é muito abrangente e muito flexível, podendo relacionar-se com todas as situações possíveis encontradas pelo ser humano ao longo de sua vida neste mundo, no cumprimento de seus deveres. Nós somos imperfeitos e imanentes – não estamos aqui para ficar. Temos que seguir as leis, regras, costumes, circunstâncias; imposições, exigências e pressões sociais. Essas “são as contingências do mundo Terra”, que podemos chamar de nossa realidade no mundo Terra.

Cada ser humano constrói sua realidade mediante o uso da sua consciência e do uso que faz do seu livre-arbítrio, mas não confunda realidade com verdade. Enfim, temos que nos inserir e adaptarmo-nos às condições deste mundo, sobreviver e evoluir. Para sermos bem sucedidos, precisamos espiritualizar-nos e lutar por um mundo melhor, mais fraterno. Termos, de fato, consciência do que somos e do real sentido de nossas vidas. É este ensinamento que o Racionalismo Cristão nos proporciona.