Filósofos e teólogos de todos os tempos se debruçaram sobre este instigante tema, fides et ratio (fé e razão). Muita tinta e papel foram consumidos (desperdiçados, querem alguns) com ensaios e discussões. Para os teólogos, fé é uma virtude; para muitos filósofos, é uma crença religiosa sem fundamento lógico. Quanto à razão, tanto uns quanto outros concordam que é uma faculdade que nos permite raciocinar. De modo geral, à fé costuma-se associar o fatalismo, o misticismo, a religiosidade e o teísmo; à razão subordinam-se o pragmatismo, o determinismo, a ciência e o ateísmo.
Paralelamente a essas posições, também se opina que o indivíduo que se apoia na fé é um preguiçoso mental; quer que os outros pensem por ele ou espera que as coisas aconteçam com ajuda divina. A fé, nesta visão, seria um tipo de muleta para aleijões mentais, ou ainda, resultado de crenças ou superstições (trevas). A razão, porém, teria a ver com a busca de conhecimentos (luz). Não temos intenção de nos aprofundar nesses detalhes. O objeto deste ensaio é levar aos nossos leitores algumas ponderações, convidando-os a refletir sobre elas.
Considerando-se o binômio fé-razão, pode-se pensar que uma é a negação da outra, que não podem coexistir numa mente sem resultar em concessões perigosas, do ponto de vista da lógica.
Talvez os esforços teológicos mais célebres de tentativas de se encontrar uma conciliação entre fé e razão tenham partido de Tomás de Aquino e de Ignácio de Loiola. Aquele argumentava que, sendo Deus o autor da natureza humana, não podia haver conflito entre elas. Este, mais pragmático, aconselhava a crer e rezar, mas agir como se Deus não interferisse nos nossos atos. Na trilha das ponderações metafísicas desses teólogos, perguntemos: será que realmente tem sentido afirmar que uma é a negação da outra? Para tentar encontrar uma resposta, comecemos com algumas considerações.
Imaginemos um objeto. Ele pode estar movimentando-se ou em repouso. Essas duas condições se negam mutuamente. O objeto não pode estar deslocando-se e parado ao mesmo tempo (estamos deixando de lado considerações relativistas). Uma outra situação: em uma mesma escala de comparação (um termômetro, por exemplo), um objeto não pode estar quente e frio ao mesmo tempo. Nesses dois casos temos situações que se excluem mutuamente. Da mesma forma, sem maiores problemas, aceitamos que a crença religiosa e o ateísmo são posturas conflitantes.
Por que essas situações movimento-repouso, quente-frio, crente-ateu são tranquilamente aceitáveis como condições que se podem negar mutuamente? Procuremos a explicação.
Haverá algo em comum entre as situações que foram confrontadas? Por que nos sentimos à vontade quando comparamos movimento com repouso, frio com quente, crente com ateu? A resposta é simples: são comparações que envolvem conceitos de mesma natureza. Não nos sentiríamos tão à vontade se alguém nos afirmasse que um livro espesso não pode conter um texto de qualidade. Neste caso, o que esse alguém estaria tentando nos impingir é a ideia de que espessura de um livro e qualidade do seu conteúdo são qualidades que se anulam. Não aceitamos a afirmação simplesmente porque espessura de um livro e teor de um texto são conceitos de natureza diversa. Não podem, portanto, ser comparados.
Chegamos, agora, à nossa pergunta fundamental. Fé e razão são conceitos de mesma natureza? Não, como veremos.
A fé é algo ensinado ou imposto. Honestamente ensinada por alguém convencido de que está fazendo um bem; imposta por alguém movido por interesses inconfessáveis. Fé é, assim, algo que se passa a ter ao longo da vida. E é quantificável, pode-se ter mais ou menos fé.
Publicado na edição de dezembro de 2016.

