Nascido em 26 de abril de 1889, em Viena, Áustria, Ludwig Wittgenstein, pensador em pauta neste artigo, era o caçula dos nove filhos do casal Karl Wittgenstein e Leopoldine Wittgenstein.
Esse filósofo foi um dos quatro fundadores da filosofia analítica. Dos outros três (Gottlob Frege, Bertrand Russell e G. E. Moore) já falamos em artigos anteriores desta história do racionalismo.
Wittgenstein, diz um historiador da filosofia, era, vocacionalmente, filósofo, mas dedicava-se também a outras áreas, como a estética, a psicologia e a linguística; chegou até a influenciar, por meio de debates diretos e de maneira indireta, os pioneiros da inteligência artificial.
Apesar de ter crescido num lar fortemente voltado para a música e outras artes, Wittgenstein demonstrou, já em seus primeiros anos, forte inclinação para as ciências exatas.
Em 1906, ingressou na Universidade Técnica de Berlim. Não tardaria, porém, a interromper seus estudos na capital alemã e rumar para a Inglaterra a fim de estudar engenharia aeronáutica na Universidade de Manchester.
No entanto, sua queda para ciências exatas faria Wittgenstein redirecionar, mais uma vez, seu foco: interromperia seus estudos na Universidade de Manchester e buscaria a orientação do renomado pensador e matemático Gottlob Frege, fundador da lógica moderna (ou lógica matemática) e um dos componentes do quádruplo rol de pioneiros da filosofia analítica. Como já dito acima, foi tema de artigo anterior.
Seguindo o conselho de Frege, Wittgenstein transferiu-se, em 1911, para a Universidade de Cambridge, Inglaterra, na qual o filósofo Bertrand Russell era um dos professores. Este logo reconheceu a genialidade do jovem austríaco, sua obstinação e seu extremo perfeccionismo. Nessa famosa universidade também se formaram dezenas de ganhadores do Prêmio Nobel e até figurões históricos, dentre os quais Isaac Newton.
A guerra e o Tratado. Porém a eclosão da Primeira Guerra Mundial em 1914 interrompeu bruscamente seu período formativo na Universidade de Cambridge. Wittgenstein, de pronto, se alistou como voluntário no exército austro-húngaro e passou a servir tanto na frente russa quanto na italiana, onde foi feito prisioneiro de guerra.
No entanto, nem a guerra nem o cativeiro seriam problemas capazes de impedir Wittgenstein de continuar a trabalhar febrilmente em suas anotações filosóficas. Aliás, teria sido dessas intensas reflexões que teria surgido sua primeira obra, o Tratado lógico-filosófico.
Após pôr o ponto final nesse livro e publicá-lo em 1921, Wittgenstein acreditou que teria resolvido todos os problemas fundamentais da filosofia e resolveu abandonar a área acadêmica. E explicou por quê: “Em se tratando de algo do qual não se pode falar com clareza e racionalmente (por exemplo, o sobrenatural, o misticismo, a ética, a estética, o valor, o sentido da vida), a postura correta é o silêncio”.
Durante quase dez anos Wittgenstein trabalhou como jardineiro, professor primário e arquiteto na Áustria.
O “Segundo Wittgenstein”. No entanto, ao entrar em contato com membros do Círculo de Viena, profundamente influenciados por seu Tratado lógico-filosófico, ele, incentivado por discussões filosóficas, resolveu, em 1929, quebrar seu isolamento.
Nesse mesmo ano retornou à Inglaterra para concluir seus estudos na Universidade de Cambridge, onde, após obter seu doutorado, passou a dar aulas sobre filosofia e matemática no período de 1930 a 1936. Em 1939 retornou para assumir apenas o posto de professor de filosofia, cargo que ocuparia até se aposentar em 1947.
Ele percebera que as teorias que defendera quando jovem eram falhas e inadequadas para explicar a totalidade do funcionamento da linguagem no dia-a-dia.
E seria esse misto de desencanto e desalento que o faria dar início à segunda fase de seu pensamento, chamada de “o Segundo Wittgenstein”. Daí em diante, em vez de buscar uma ideal e perfeita linguagem lógica, ele passou a analisar a linguagem viva e cotidiana, vendo-a como uma prática social em constante mutação.
Legado e morte. Em sua segunda fase filosófica, Wittgenstein criou o conceito “jogos de linguagem”, de acordo com o qual a linguagem humana funciona como um jogo regido por regras. O sentido das palavras não depende de uma essência fixa ou de uma cópia direta da realidade. Depende, sim, do uso prático; das regras das diferentes atividades humanas; e do contexto social e cultural em que são empregadas.
Para Wittgenstein, a filosofia não deveria ter por objetivo apresentar teorias complexas nem construir sistemas metafísicos e sim atuar como uma “terapia” para dissolver confusões conceituais geradas pelo mau uso da linguagem; cabe ao filósofo, afirmou, o papel de desatar os nós que nosso próprio entendimento cria ao usar mal as palavras e a lógica.
Ao voltar a dar aulas na Universidade de Cambridge, Wittgenstein, embora vivendo de maneira muito simples e ascética, conseguiu atrair discípulos e formar um círculo de seguidores leais.
Porém a essa altura restava-lhe pouco tempo de vida. Faleceu, aos 62 anos, em 29 de abril de 1951, na cidade de Cambridge, vítima de câncer de próstata. Mas deixou um vasto acervo de escritos, vale dizer, um legado intelectual inestimável.
Wittgenstein é considerado o maior e mais influente filósofo do século XX, e sabe-se que, em vida, ele influenciara massivamente os meios acadêmicos da época.
Segundo outro historiador da filosofia, entre as quatro obras fundamentais de Wittgenstein, duas são consideradas pilastras do pensamento desse filósofo: o Tratado lógico-filosófico e as Investigações filosóficas. As outras duas, também fundamentais, diz o estudioso, são O livro azul e O livro marrom.
Escrito quando Wittgenstein era um jovem de 28 anos, o Tratado lógico-filosófico marca a sua primeira fase filosófica, voltada à lógica e aos limites da linguagem, ao passo que a obra Investigações Filosóficas inaugura a segunda fase com o conceito “jogos de linguagem”.
Tratado lógico-filosófico. Nessa obra Wittgenstein defende que a estrutura da linguagem espelha a estrutura da realidade. Ele argumenta que os limites de nosso pensamento, e do que pode ser dito com sentido são definidos pela lógica e conclui que os problemas filosóficos tradicionais surgem de incompreensões da linguagem e que sobre aquilo que não se pode falar racionalmente — como, por exemplo, o sobrenatural, a ética, o misticismo — deve-se guardar silêncio.
Investigações filosóficas. Nesta obra Wittgenstein abandona sua visão anterior sobre a linguagem como figuração lógica da realidade. Agora ele argumenta que o sentido da linguagem reside em seu uso prático dentro de “jogos de linguagem” e de “formas de vida”, superando falsos problemas metafísicos por meio da clarificação gramatical.
O Livro azul. Wittgenstein afirma nesta obra que o significado das palavras reside no seu uso prático dentro da linguagem e não em imagens mentais ou objetos ocultos e introduz a noção de que os problemas filosóficos surgem de confusões gramaticais e do equívoco de aplicar regras de um contexto linguístico a outro diferente.
O Livro marrom. Neste livro ele defende que o significado das palavras não reside em essências abstratas ou em imagens mentais, mas sim no seu uso prático dentro de contextos sociais específicos. Para isso, aplica de forma sistemática o conceito de “jogos de linguagem”, demonstrando por meio de exemplos cotidianos que a linguagem funciona como ferramentas adaptadas a diferentes “formas de vida”, desfazendo assim confusões metafísicas tradicionais.

