Os velhos morreram, os novos envelheceram. Quem se ocupará da Revolução cubana com tantos senões, a partir mesmo da desigualdade – em capacidades – que se acentuou com o garrote do embargo e os desacertos do conserto? “A esperança é um morto que não demanda senão renascer. Conseguirá a pequena ilha perdida no meio do Caribe ressuscitá-la sozinha?” – indaga Renaud Lambert no Diplo.
O embargo que, breve, fará 70 anos, esvazia Cuba até de cérebros. Uma política de pressão máxima. Sequer começa em Sierra Maestra. Remonta a 1891 e ao nascer do Partido Revolucionário Cubano. Houve seis tentativas dos Estados Unidos de comprar Cuba da Espanha, na primeira metade do século XIX. Mais cedo ou mais tarde, o país teria de integrar-se à União americana. Importante para o controle do golfo do México e dos países que o margeiam.
A investida de agora carrega mais 243 medidas coercitivas. É o objetivo finalmente prestes a cumprir. Mas há fatores em contrário, no curto prazo. Basta citar que o governo cubano controla a vida política em todo o território, ao que somamos o amplo ceticismo dos americanos quanto a novas intervenções militares no exterior. Como a que se evitou na Venezuela, com o sequestro do presidente Maduro. No início desta década, 11 de julho de 2021, Cuba explodiu com o mal-estar econômico, social e político acumulado num contexto de crise sanitária (a pandemia) e inflação resultante da reforma monetária. Coesa. E insistiu nas indagações sobre o socialismo e a democracia. Achar solução, perspectiva, renovação, fazer a crítica das experiências históricas e apoiar-se em mobilizações. A resistência tem em Fidel Castro “o arquétipo do anti-imperialismo do século XX e o vetor de uma mensagem universal de emancipação”, segundo Salim Lamrani, jornalista e autor.
A copiosa literatura sobre a Revolução mostra os ressentidos com os Estados Unidos, por “incapazes” de entender a realidade cubana. Há os que torcem pela resistência, “o que Cuba sabe fazer de melhor”. Os pregadores de solidariedade invocam o solidarismo, sistema em que importam a pessoa e a comunidade humanas afins com a democracia. Muitos lembram a humilhação infligida pelos Estados Unidos à União Soviética, quando da crise dos mísseis, outubro 1962. E cuja resposta o mundo sofre até hoje: a corrida nuclear. Mil histórias sem fim.
Qual socialismo? Qual democracia? Mas é de Janette Habel que parte a pergunta: qual socialismo e qual democracia para Cuba? Cientista política, pesquisadora do Instituto de Altos Estudos da América Latina e membro do Conselho Científico da Attac (Associação para Tributação das Transações Financeiras para Ajuda ao Cidadão, Paris), em entrevista há tempos concedida ao tradutor e escritor cubano Rolando Prats, expõe os pontos nevrálgicos do momento cubano. Sumariamente: a questão das gerações e da economia vis-à-vis o bloqueio e o sistema de partido único.
Parece irrealista a Habel, no mundo de hoje, a ideia de uma sociedade socialmente homogênea. Há mudanças civilizatórias, avanços tecnológicos, o reconhecimento das minorias LGBT. A ela o Partido Comunista Cubano se afigura em flagrante inadaptação. “É revelador que, apesar das numerosas exortações e tentativas para separar o Partido e o Estado, jamais se logrou êxito… Esse é um fator de muito peso na burocracia”.
Em Cuba, pela primeira vez está no poder um cubano nascido depois do triunfo da Revolução, Miguel Díaz-Canel. O governo proclama “continuidade”. Já houve atualizações do modelo desde 2006 (abertura da economia, compra/venda de propriedade privada), com o sucessor de Fidel, o irmão Raúl.
Díaz-Canel propõe agora um conjunto de 176 medidas para reformular a fundo a economia cubana. “As transformações que ora implementamos não são para mais capitalismo, mas sim defender e avançar na construção socialista; um socialismo que põe o ser humano no centro de sua obra”, disse ele, quando das celebrações do Dia dos Mártires, 30 de julho.
As reformas de Raúl Castro, “sem pressa, mas sem pausa”, já causaram rupturas sociais. Desde 1959, houve três ou quatro gerações que, com a queda da União Soviética, conheceram uma crise atrás da outra. As conquistas da Revolução, inclusive em educação e saúde, foram, para as velhas gerações, elementos muito importantes de apoio a Fidel Castro. Afetam as novas gerações sem a mesma história. De formação média ou superior e com acesso a trabalho qualificado, estas convivem com uma política rígida. Habel observa que se trata, porém, de um fenômeno clássico e universal. Quanto ao segundo aspecto, aceita como fato que as aspirações e os debates políticos distanciaram-se da democracia. Com a ressalva: “De Cuba se exige que satisfaça normas democráticas ao mesmo tempo que o país, estrangulado economicamente pelo embargo, sofreu terrivelmente com a pandemia. Os efeitos da pandemia foram acirrados pela estratégia econômica aplicada, em particular, com a prioridade outorgada ao turismo”.
Que futuro para o socialismo cubano? Consoante o comentário cético do economista Joaquín Infante, “ao socialismo ideal ninguém jamais chegou”. Então, que futuro para o socialismo cubano? Depois de algumas boas tentativas, o socialismo que poderia secundá-lo está em baixa na América Latina: Bolívia, Chile, Colômbia, Equador, Peru. Vésperas de eleições, Brasil na mira. Intervencionismo do poderoso vizinho, sim; mas também cansaço com disputas internas e a militarização forçada. Lembrando que só em 1998 reaparece o ideal de justiça social de José Martí na Venezuela, com a eleição de Hugo Chávez. Logo, Luis Inácio Lula da Silva no Brasil (2002), Evo Morales na Bolívia (2005) e Rafael Correa no Equador (2006).
Cuba fica ao lado de Miami, no flanco sul, bastião da direita anticastrista, de tanto peso nas eleições estadunidenses. Fidel Castro e Che Guevara tinham uma convicção política “bolivariana”, compartilhada por Chávez: a necesidade da integração latino-americana para o desenvolvimento frente à dominação imperialista. Cuba necessita aliados na América Latina, embora não represente um posto avançado do socialismo, segundo Habel. Ela julga também relevantes os vínculos com a Rússia e China: “negócios, não dádivas”. Em novembro 2023, Emanuel Pietrobon divulgou artigo no Valdai Club sobre um possível “encontro” Cuba e Brics. Uma forma de “salvação” vinculada à multipolaridade, com investimentos de países do grupo.
“Uma espada de Dâmocles pesa sobre o país”, alerta Habel. “Como negociar sem comprometer aquilo a que não se pode renunciar – a soberania?”

