Um país com memória

A utilidade da memória não é apenas para nos lembrarmos dos aniversários dos amigos (ou do nosso), número de telefone ou nomes de pessoas que nos são apresentadas em sociedade, detalhes utilíssimos, porém secundários. A memória serve, principalmente, para manter aprendidas as lições que nos são fornecidas ao longo de nossa existência terrestre. Grandes ou pequenos erros escusavam de ser cometidos, se nos lembrássemos que trouxeram sempre desastrosas consequências. Amanhã é conjetura, ontem uma realidade a ser analisada e estudada, cada experiência somando-se às passadas, tecendo a escada da evolução. Sem memória, o ontem seria uma inútil e vazia nebulosa. O hoje não teria sentido.

Como as pessoas, os povos têm memória, ou não têm. Alguns, infelizmente, na corrida irracional para um pseudoprogresso e modernização, fazem questão de desprezar todos os vestígios das diversas épocas de sua história. Pouca gente sabe, entretanto, que o país considerado o mais moderno do mundo, de tecnologia avançada e símbolo da frívola sociedade de consumo, é também o que com mais zelo cultiva o passado. O senso de preservação está tão desenvolvido nos Estados Unidos, que os museus nesse país se contam às centenas, e qualquer cidadezinha do interior preserva o seu passado com o maior carinho e orgulho.

Desde os monumentais museus de Nova Iorque ou Washington, onde a arte, ciência e história do mundo inteiro estão preservadas e expostas, até os pequenos museus regionais, estão presentes o cuidado, a técnica, o detalhe. Tudo pode ser estudado através do museu. O de Buffalo Bill, em Cody, no meio-oeste americano, mostra toda a história da fixação do homem de origem europeia nessa região, mais a do índio, habitante das pradarias, e exibe seus petrechos, armas, vestimentas. Visto de fora, parece modesto. Imaginei que o pudéssemos visitar talvez em 15 minutos. Gastamos duas horas, vendo tudo a correr, porque o tempo de que dispúnhamos era pouco. Um dia inteiro não teria sido muito para ver, com razoável minúcia, aquela estupenda coleção.

A preservação de casas históricas é um outro capítulo do apuro com que essa gente cultiva seus tesouros. Até há coisa de cem anos atrás, os americanos, tal como nós ainda hoje, não tinham a menor cerimônia em deixar cair em ruínas as casas onde tivessem vivido os seus maiores vultos nacionais. Despertados a tempo para a importância da história, eles trataram de recuperar suas casas históricas e, hoje, vemos cada uma delas, simples ou luxuosa, testemunhas do passado, mostrando às atuais gerações de americanos como viveram as pessoas que fizeram a sua história.

Uma mulher em traje antigo recebe à porta os visitantes (que antes pagaram a sua entrada é claro, porque a manutenção não se faz de graça). Lá estão as cortinas, os móveis, os objetos de adorno, os utensílios de casa. Na sala, às vezes uma mesinha a um canto, com o vinho servido em dois cálices de cristal, dando-nos a impressão de que o dono da casa se ausentou, por uns instantes, com a sua visita, e logo estarão de volta. No quarto, talvez a camisola da dona da casa esteja estendida sobre a cama, e quase sentimos a leve presença daquela criatura do passado. Frequentemente lá está o bercinho de alvo cortinado lembrando que a criancinha que ali dormiu, faz tanto tempo, cumpriu o seu ciclo de vida terrestre: cresceu, viveu e foi-se embora. Em que mundos andará hoje? Neste, outra vez?

Em uma dessas casas mora um bonito gato cinza. Deita-se, serenamente, no antigo brocado das cadeiras, onde nenhuma pessoa ousaria sentar-se e aquece, com sua presença, aquele ambiente de lembranças. Algumas casas, menos sagradas que as do General Lee e de George Washington, cedem, mediante quantia apropriada, seus salões para jantares formais, que ali são servidos com o esplendor de outras épocas. Essa renda adicional ajuda a mantê-las, pois geralmente são preservadas por sociedades particulares.

Tecnologia, indústria e cimento armado são úteis, mas um país e um povo vivem também de cultura, de arte, de beleza, de história, das memórias de um passado que transmite lições e experiências. Um povo com memória tem à sua disposição duas vidas: a passada e a presente, o que lhe permite projetar uma visão nítida e organizada do futuro.

Publicado em 20 de setembro de 1976.